Política sem moral

O grande movimento filosófico que nos deu as bases da sociologia, assentando as lei fundamentais que regem os fenômenos sociais, ainda não conseguiu exercer na política o influxo fecundo e criador. Sem racionalidade nos princípios, sem coordenação, sem método, sem disciplina científica, a política ainda é dominada por um cego empirismo, que a converte em um meio de explorar por todas as formas a sociedade e os seus mais fundamentais interesses. Daqui resulta esta detestável oposição, admitida pelos políticos atuais entre a política e a moral, que eles consideram como duas coisas contraditórias, antagônicas e incompatíveis na sua ação recíproca. Daqui nasce o fato constantemente e por toda parte observado: a política sem moral. Prevêm-se desde logo as tremendas conseqüências que emergem necessariamente de semelhante fato.

Em relação aos indivíduos, a política é exercida no meio de todas as imoralidades, quaisquer que sejam, contanto que o fim seja atingido, contanto que eles subam na escala dos ofícios, auferindo o maior proveito individual de todos os seus atos. Assim sendo, o ato mais incoerente, imoral, aviltante ou condenável é para eles perfeitamente legítimo, como constituindo uma condição de satisfazer o fim político. Por isso é que se observa que em geral os que mais se salientam na força constitucional, os que mais sobem, os que se cercam de maior renome, são precisamente aqueles que se revelam mais hábeis e amestrados em conseguir o desejado, embora desrespeitem ou suprimam praticamente os princípios morais.

Em relação aos partidos, que fornecem o pessoal dos governos, a política, na sua maior simplicidade, se reduz a isto: vencer, custe o que custe, vencer pelo emprego de todos os meios, sem seleção de qualidade. Quanto ao governo toda a política se encerra nesta frase erigida em divisa invariável por uma das mais salientes figuras do parlamentarismo: governar é segurar-se no poder. Isto por si só derrama muita luz sobre a forma por que os governos entendem dever fazer a política; isto explica porque, na sua maioria, concentram a sua atividade governativa nas medidas de conservação. Para governar, é preciso corromper tudo, as idéias e os homens, o espírito e as opiniões, a consciência e o voto.

Em relação a sociedade, é igualmente desastrosa a conseqüência da política, por tão acanhada forma concebida. O que ela produz inevitavelmente é a confusão geral em que ninguém se entende, é a desenvolta anarquia moral e intelectual, é a supressão da moralidade nas ações, é a dissolução dos costumes públicos, que põe em perigo a própria subsistência da sociedade. Tal é, em seus inevitáveis efeitos práticos, a política sem moral.

Júlio Prates de Castilhos em 20/05/1884

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